Miguel Nicolelis: “Sinto-me decepcionado”
11 de Julho de 2010 - O cientista brasileiro, Miguel Nicolelis, de 49 anos, é considerado um dos maiores pesquisadores do planeta na área de neurociências e, por diversas vezes, lembrado para o Prêmio Nobel. Ele lidera pesquisas que podem, por exemplo, representar avanços históricos no tratamento do Mal de
Parkinson e implantou em Natal um
Instituto Internacional de Neurociências (IINN), que já captou investimentos superiores a R$ 100 milhões e que pretende ser a semente da futura “Cidade do Cérebro”, uma estrutura científica, cultural, econômica e social estimada em mais de R$ 1 bilhão. Não faltam, portanto, motivos para estímulo na carreira de Nicolelis. No entanto, ele revela uma decepção: desde a instalação do IINN, há sete anos, o Instituto nunca recebeu o apoio devido dos poderes públicos estadual e municipal, nem dos políticos potiguares em geral. O neurocientista que acredita que a força do pensamento pode superar as barreiras geográficas e, de certa forma, provou isso instalando um centro de conhecimento de ponta em um Estado pequeno como o Rio Grande do Norte, não esperava deparar com o obstáculo da “falta de visão”. Miguel Nicolelis esteve em Natal na última semana e concedeu entrevista exclusiva ao repórter Wagner Lopes, da TRIBUNA DO NORTE, na qual falou sobre o projeto, as novidades e, principalmente, as dificuldades enfrentadas pelo IINN. (...)
Há problemas?
Algo que podemos mencionar é que há sete anos
a sede do instituto funciona nessa rua de terra (Francisco Luciano, em Candelária, próximo à empresa Via Sul). Entra prefeito, sai prefeito, nos prometem o asfalto, e nada muda. Recebemos gente do mundo inteiro, ganhadores do Prêmio Nobel, embaixadores de outros países, e a rua continua deste jeito. O que as pessoas pensam quando vêm a Natal, com todos os problemas que a cidade tem, e veem uma iniciativa desse tamanho em um rua de terra? As pessoas dos Estados Unidos, da Europa, do Japão, visitam esses prédios e ficam maravilhadas. E a primeira pergunta que fazem é como é que o governo local não asfalta nem a rua. (...)
...
E tudo é difícil, tudo é uma dificuldade. As pessoas falam, nos tratam muito bem, sou muito bem recebido, mas do ponto de vista operacional, se isso fosse feito no estado de São Paulo, em outro estado, outro país... Essas demandas são mínimas e não estamos pedindo nada de outro mundo. São 200 metros de asfalto. A RN que chegava no instituto lá em
Macaíba foi recuperada, mas não tinha mais condições de passar automóveis. Havia risco de mortes devido às crateras. Eu mesmo perdi dois pneus do carro nas idas até lá. Mas aqui na frente do instituto, aqui em Natal, eu categorizaria como uma vergonha. O município também nos pediu um projeto para outra escola aqui em Natal (o IINN já conta com uma na Cidade da Esperança). Fizemos o projeto e nunca tivemos resposta. Então me pergunto se as pessoas não percebem a importância disso. Acho que depois de sete anos não há muitas dúvidas de que somos sérios. ...
... Somos mais de 100 pessoas que vieram do Brasil inteiro para cá, mas
nunca imaginei o grau de desinteresse que a gente encontraria do poder público ...
... E a gente fica sabendo, por exemplo, que
existe a possibilidade de se ter um curtume lá perto do Campus do Cérebro. Essa notícia está se espalhando e, se for verdade, é um atentado à lógica. Imagina a gente trazendo gente do mundo inteiro e alguém quer colocar um matadouro de boi do lado de nosso instituto, com urubu em volta, carcaça de animais. É pior que a rua de barro. Na rua de barro você pelo menos passa de trator. De onde saem essas ideias? ... (segue...) Fonte:
Tribuna do Norte.