domingo, 3 de novembro de 2002

Agrot�xicos

Globo Rural

Descaso com a vida

Ainda hoje, agricultores brasileiros morrem v�timas de intoxica��o por veneno agr�cola. A regi�o Sudeste � a que registra o maior n�mero de casos. Em Barbacena, Minas gerais, o Minist�rio do Trabalho, o sindicato dos trabalhadores rurais e a faculdade de medicina decidiram investigar essas intoxica��es, no campo. � o que mostra a reportagem da Ana Dalla Pria.

Trabalhadores aplicando veneno sem prote��o. Agricultores que abastecem pulverizador na margem do rio, colocando em risco a sa�de das pessoas e poluindo o meio-ambiente. Tem at� espantalho feito com frasco de veneno. � dif�cil de acreditar, mas ainda hoje h� quem duvide que os agrot�xicos sejam perigosos. �N�o mata, n�o. N�o mata nem broca�, desafia o agricultor Jorge Costa.

N�s fomos a Campo das Vertentes, regi�o de Barbacena, a duzentos quil�metros de Belo Horizonte. Numa propriedade, os agrot�xicos s�o preparados � beira de uma lagoa que des�gua no riacho. As embalagens, ainda com produto dentro, ficam espalhadas pelo ch�o. O agr�nomo Pedro Zuchi trabalha na Fundacentro, �rg�o que pesquisa e desenvolve t�cnicas de seguran�a para o Minist�rio do Trabalho. Ele fala dos perigos de uma situa��o como essa: �Produto aberto, as condi��es dos equipamentos de aplica��o tem muita emenda. Voc� pode ter vazamento de produto, que certamente vai acabar caindo na lagoa�, observa. �Os efeitos desses produtos s�o diversos: cancer�geno, dermatose, atacar o sistema nervoso central. Temos que entender que todos os produtos s�o perigosos, desde o de faixa verde at� o de faixa vermelha.�

Em mil 1999, a Fundacentro, come�ou a pesquisar o uso de agrot�xicos na regi�o. Examinou trezentos agricultores e trabalhadores rurais. O teste revelou res�duos de veneno organofosforado no sangue.

O resultado foi assustador: mais de 60% agricultores que passaram por exames continham res�duos acima do que � recomendado pela Organiza��o Mundial de Sa�de.

Um dos casos mais graves � o de Jair dos Santos, 25 anos. Ele lida com agrot�xico desde os doze. H� cinco anos, vem sofrendo com graves problemas neurol�gicos que, segundo os m�dicos, foram causados pela exposi��o aos venenos agr�colas. �Tenho fortes tonturas, v�mito, muito v�mito. Agora evito um pouco com a sa�da dele (agrot�xico), mas n�o consigo porque a vida aqui � tudo ou nada.�

Apesar da doen�a, Jair continua trabalhando e aplicando veneno na lavoura.

- Na hora de aplicar o veneno na lavoura n�o se usa um equipamento de prote��o?

�N�o. N�o tem porque � caro. N�o pelo valor da sa�de da gente. N�o tenho o dinheiro�, lamenta Jair.

Outro caso grave � o de dona Alc�dia de Carvalho. H� quatro anos, ela se intoxicou ao aplicar veneno na lavoura de tomate. Foi parar no hospital e ficou internada cinco dias. Dois anos depois, a hist�ria se repetiu. Mais quatro dias no hospital. �Me deu dor na nuca e uns incha�os na testa, onde eu colocava a m�o do�a. Depois minha boca e a l�ngua incharam. Da� fui para o hospital. O m�dico falou que para eu tomar muito cuidado, porque sen�o mais uma vez eu morro�, conta.

Dona Alc�dia nem sabe qual veneno causou a intoxica��o. �Assim eu n�o guardo o nome dos venenos... Nem l� a gente n�o sabe. A gente n�o foi para a escola porque desde pequeno tinha que trabalhar�, lamenta.

Casos como o de dona Alc�dia e do Jair acontecem por todo o Brasil. Os registros v�o para o Sinitox - Sistema Nacional de Informa��es T�xico-Farmacol�gicas - do Minist�rio da Sa�de. Os dados mais recentes revelam que 5.127 pessoas se intoxicaram com venenos agr�colas no ano de 2000; 141 morreram.

A situa��o � assustadora, porque o dado estat�stico est� muito, mas muito abaixo do n�mero real. O m�dico respons�vel pelo pronto-socorro p�blico de Barbacena, Paulo Resende, explica que apenas os casos graves ficam registrados. �A gente tem na m�dia de um a dois casos por m�s. Vale ressaltar que a Organiza��o Mundial de Sa�de tem um registro de que para cada um caso notificado haveria 50 outros n�o notificados. Ent�o, estamos subestimando essa estat�stica.�

Muitos agricultores intoxicados por veneno agr�cola nem procuram atendimento m�dico: preste aten��o nesse depoimento: �Sinto v�mitos, dor no est�mago. Quando passo mal tomo um chazinho da ro�a e fica por isso mesmo�, conta o agricultor Jo�o Carvalho.

Em 2001, a Fundacentro resolveu repetir os exames de sangue que havia feito dois anos antes. E teve uma surpresa: o �ndice de contamina��es caiu a quase zero.

O que deveria ser uma boa not�cia � motivo para mais preocupa��o. O m�dico respons�vel pelo centro de sa�de do trabalhador de Barbacena, doutor Carlos S� Grise, diz que os agricultores continuam se contaminando. Os venenos � que mudaram. �N�s n�o temos uma tecnologia adequada para detectar agrot�xico no sangue ou na urina do trabalhador. Hoje os agrot�xicos s�o sint�ticos, utilizados e n�o detectados. Na urina, por exemplo, temos apenas 30 minutos, depois do contato com o veneno, para detectar.�

O doutor Carlos S� Grise cita alguns sintomas que podem aparecer em quem tem contato sem prote��o com agrot�xico: falta de apetite, suador, dor de cabe�a freq�ente, falta de ar e irrita��o nos olhos.

Para a Fundacentro, h� dois problemas graves: a falta de informa��o e de orienta��o. �Na verdade n�o existe orienta��o de como usar os produtos, da preserva��o do meio ambiente e da sa�de do trabalhador. Os �rg�os normalmente v�m para multar e fiscalizar e n�o orientam os produtores�, denuncia a t�cnica de seguran�a Terezinha Campos.

Dona Terezinha acredita que um bom lugar para ensinar � a sala de aula. Por isso, criou um projeto para as escolas da zona rural de Barbacena. A id�ia � que, atrav�s das crian�as, as orienta��es sobre os venenos agr�colas cheguem at� os pais.

Para participar do projeto os professores tiveram que voltar para a sala de aula para aprender sobre os riscos que a atividade rural oferece ao trabalhador, incluindo a� o uso inadequado de agrot�xicos

O projeto que tem apenas dois anos, mas j� d� resultados. �Depois desse projeto a gente aprendeu como e para onde encaminhar quem est� doente�, conta a professora V�nia dos Santos.

Nas aulas, crian�as e adolescentes conhecem o EPI - Equipamento de Prote��o Individual - que deve ser usado toda vez que se lida com veneno. Orientados pelos professores, os alunos preparam cartilhas, que mostram o jeito correto de lidar com os produtos, os equipamentos necess�rios e os cuidados para n�o contaminar o meio ambiente.

Agrot�xico tamb�m � tema das aulas de arte. Tem at� teatrinho.

Ewerton Ferreira tem 14 anos e est� na oitava s�rie. Nas folgas da escola, ajuda o pai na ro�a. Seu An�sio conta que, por causa do filho, as coisas come�am a mudar no s�tio. �J� mudou bastante. Agora a gente usa equipamentos, antes n�o usava�, aprova An�sio.

�Eu acho que ele est� prestando aten��o no que estou falando. Eu gosto disso�, diz Ewerton.

Por enquanto, o projeto nas escolas � apenas uma semente. Ainda n�o mudou a realidade, na Serra das Vertentes, mas revela um caminho. Uma tentativa de mudar a consci�ncia do agricultor e da sociedade. E assim, diminuir os �ndices t�o alarmantes de envenenamento nos campos do Brasil.

Al�m dos venenos agr�colas, os produtos veterin�rios tamb�m podem provocar intoxica��o. Ao lidar com esses produtos � sempre bom pedir orienta��o de agr�nomos e de veterin�rios.



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