“O correr da vida embrulha tudo
A vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem”.
Guimarães Rosa.
Recentemente fui abordado por um amigo que me perguntou: “Como conceituaria a doença de Parkinson?” Apesar da pergunta ter sido feita de forma um tanto inesperada, não foi inquirida por falta de conhecimento. Nem tão pouco, pela curiosidade, mas, sobretudo, pela preocupação e medo que demonstrava com a doença. O que me surpreendeu foi o modo em que a pergunta foi formulada, uma vez que convencionalmente a pergunta é feita em relação às características da doença. Foi dai que me lembrei da frase de Guimaraes Rosa, em epigrafe para dai apropriar-me da sabedoria do Mestre e fazer uso da mesma para conceituar a Doença de Parkinson a partir da própria frase. A doença é assim: “esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”.
Esse sucessivo vai e vem é natural da doença que os médicos chamam de alternâncias da doença. Desse constante vai e vem é que necessitamos a cada investida de coragem para enfrentar a nova investida que sempre vem progressivamente superior à primeira. Isto porque sendo uma doença degenerativa o alcance dos danos em seu corpo aumenta a cada volta dos sintomas. Essa característica começa em virtude dos sintomas prolongados e que retornam às vezes em uma velocidade que sinto a sua impertinência e imperativo modo que a doença impõe ao corpo humano.
Estou falando da rigidez, da bradicinesia, dos tremores que, às vezes, chegam em contrastes uns com os outros, nos deixando duro, lento e tremulo. E ai, parecem se desligarem uns dos outros na mesma intempestividade que chegam. É assim que a doença vai se desenvolvendo a partir do cérebro na região chamada de Nigro onde os neurônios denominados de dopaminas estão alojados e sendo exterminados sem motivos aparentes. Nem eu sei por que, nem a ciências neurológicas em seus estudos desde 1817 sabem.
Talvez esteja ai a razão de a doença ser um embrulho e mal feito que se instala no cérebro, transformando uma vida numa interminável alternância de sintomas que vão e volta, que ora lhe da uma trégua, levando a intermináveis desejos de resgatar a saúde, formando naturalmente de uma vez e para sempre o medo das alternâncias, o medo desse embrulho, dessa embrulhada toda.
Contra esse embrulho inglês que minha vida hoje é assim. Embrulhada. Formalizei igualmente minha defesa com outro embrulho visando administrar um pacote que chamei de fé, para cruzar com a demanda da Doença do Parkinson numa desesperada tentativa de amenizar a progressão da doença e numa inversão do quadro relacional das coisas, que aos poucos fui aprendendo que tinha que reaprender a vida parkinsoniana, não apenas com o uso de medicamentos, mas, sobretudo, com os diferentes sentidos da experiência de viver.
Esse meu pacote consiste na melhoria da qualidade de vida, com mais ação que compreende exercícios físicos a começar com a prática do pilates, ir ao encontro de meus novos colegas de Parkinson, participar com eles das novas iniciativas, interagir através da internet, compartilhar dramas e alegrias da doença, e concluindo com um liame com a nossa alma na oração, como a maneira mais consistente de ir ao encontro da “Fe”. Com isso eu sossego e desinquieto.
Assim é a vida de um Doente de Parkinson. Um verdadeiro embrulho. Que se alterna esquentando a rigidez que somado os tremores aquece a minha cabeça, meu corpo. E dai quando você pensa que vai explodir, ele implodi para um congelamento e esfria. Passo um tempo curto de aparente sossego, aperta dentro de si uma dor na alma e desinquieta, já exigindo coragem para administrar um embrulho que não inventaram ainda a forma de desembrulhar.
Mas de fato quem desembrulhou mesmo o conceito foi um parkinsoniano cujo conceito li em livro, que peço desculpas de não mencionar o seu nome por mero esquecimento. Esse é o mais perfeito conceito da doença de Parkinson que conheço.. Indagado pelo médico afirmou: “é um carro velho com freio de mão puxado.” É impressionante como uma metáfora esclarece em todos os aspectos a doença. Que retrata desde o sentimento, a prevalência, o humor, a lentidão, a rigidez e a postura. Tudo contido no mesmo contexto onde não existe prazer de ser doente. Qual o prazer de ter um carro velho? No entanto se bem cuidado tem postura que supera os desaines mais modernos. Ao caminhar parece estar desfilando aos olhos dos mais velhos, em plena câmara lenta. Não é exibido, no entanto deseja ser olhado pelos médicos, e tratado em oficina que trata da saúde e da melhoria da qualidade de vida.
Se no dizer de Guimaraes Rosa a vida é embrulhada, e como vivo nesse embrulho, com outro embrulho que é a doença de Parkinson, para atender sua pergunta meu amigo, o meu conceito de Parkinson é a soma de toda essa embrulhada que o nosso profícuo escritor definiu, e o fez em prosa e verso, porque conhece a vida. Entretanto, nem os poetas, nem os escritores, nem os cientistas sabem a causa da minha doença, como posso eu conceitua-la. Somente sei dizer que de fato é um embrulho denominado “Mal de Parkinson”.
Postado por Domingos Sávio de Azevedo Cabral
Fonte: APOPP - ASSOCIAÇÃO POTIGUAR DOS PORTADORES DE PARKINSON.
