� bom, mas � ruim
Les�o cerebral que perturba o uso de uma das m�os facilita o aprendizado com a outra
Quer melhorar suas habilidades com a m�o direita? Arranje uma les�o na parte do c�rebro que controla sua m�o esquerda! Claro que ningu�m far� isso de prop�sito, mas essa � a conclus�o do estudo que os neurocientistas Scott Bury e Theresa Jones, das Universidades de Washington e do Texas respectivamente, acabam de publicar no Journal of Neuroscience de outubro.
Cada lado do c�rebro possui, bem no alto da cabe�a, uma faixa de neur�nios que controlam os movimentos do lado oposto do corpo; na falta desses neur�nios, os movimentos ficam dificultados. Um derrame limitado � regi�o motora que comanda a m�o direita, por exemplo, mata os principais respons�veis pelo seu controle, e faz com que essa m�o deixe de ser usada. Em conseq��ncia, a m�o esquerda, ainda que n�o seja a preferida at� ent�o, assume o que a direita fazia e passa a trabalhar dobrado.
O fen�meno poderia ser uma manifesta��o cerebral do cl�ssico "se n�o tem tu vai tu mesmo", mas Bury e Jones mostram que o c�rebro vai al�m da compensa��o por pura necessidade. Os dois fizeram no c�rebro de v�rios ratos les�es que dificultavam o uso da pata da frente preferida, e em seguida testaram a habilidade dos animais de aprender com a pata n�o-preferida, poupada pela les�o. Os roedores deviam executar uma tarefa nova e bastante complicada para um rato: apanhar um gr�o de comida distante atrav�s de uma janela estreita.
For�ados a usar a pata que n�o preferiam, no come�o os animais s� conseguiam apanhar e levar a comida � boca uma vez a cada dez tentativas. Quem j� tentou escrever com a m�o que normalmente n�o segura o l�pis conhece a dificuldade. Com tempo e insist�ncia (e necessidade: os ratos estavam permanentemente de dieta), no entanto, os animais de c�rebro intacto aprenderam a controlar a pata n�o-preferida (assim como canhotos aprendem a escrever com a m�o direita), e em uma semana j� conseguiam levar � boca cinco de cada dez gr�ozinhos.
E se o uso da pata preferida tivesse sido comprometido por uma les�o no c�rebro, surpresa: o aprendizado com a outra pata era mais r�pido: chegava a cinco sucessos a cada dez tentativas em apenas tr�s dias; ao fim da semana, o animal mostrava uma habilidade com a pata n�o-preferida de deixar no chinelo os ratos que n�o receberam a les�o.
Jones j� havia demonstrado anteriormente que les�es da regi�o motora de um lado do c�rebro provocam altera��es na regi�o motora do outro lado que facilitam o estabelecimento de novas conex�es entre neur�nios. Ou seja: se a regi�o que controla a m�o direita sofre uma les�o, a regi�o do lado oposto, que controla a m�o esquerda, torna-se mais capaz de sofrer as altera��es estruturais que s�o a base do aprendizado. E quanto mais o animal usa a m�o esquerda n�o-afetada ap�s a les�o, mais novas conex�es s�o evidentes na regi�o motora correspondente e n�o-afetada do c�rebro.
Simplesmente prender a m�o preferida para usar mais a outra, em compara��o, n�o tem o mesmo efeito. � a exist�ncia de uma les�o em um lado do c�rebro que, de alguma forma, facilita a modifica��o nos circuitos do outro lado. Talvez por isso o aprendizado se torne mais r�pido e eficiente, e a compensa��o � bem-sucedida: o animal passa de fato a conseguir fazer tudo o que precisa com a pata que antes n�o era muito usada.
Facilitar o uso da pata ou m�o intacta quando o controle da outra � perturbado � certamente uma �tima 'ap�lice de seguro' do c�rebro: quando uma das m�os parece inoperante, pelo jeito � esse seguro que permite que o indiv�duo volte rapidamente �s atividades normais, usando com sucesso a m�o boa pelas duas.
Como toda ap�lice de seguro que se preza, no entanto, essa tamb�m tem seu pre�o: o controle facilitado da outra m�o pelo c�rebro faz com que a m�o afetada seja esquecida de vez. � comum pacientes deixarem de usar todo um bra�o por causa de um derrame que afetou apenas o uso dos dedos daquela m�o. O descaso com a m�o afetada � plenamente compreens�vel, dada a frustra��o de tentar mov�-la em v�o, mas o problema � que o desuso comprovadamente enterra qualquer esperan�a de reabilita��o. No caso do MAL DE PARKINSON, por exemplo, suspeita-se que o abandono de alguns movimentos � menor sensa��o de dificuldade acabe por agravar o problema e acelerar a progress�o da doen�a.
Ao contr�rio, � a insist�ncia face � frustra��o que permite a recupera��o dos movimentos. A terapia de maior sucesso hoje na reabilita��o ap�s o derrame � justamente o uso for�ado das partes do corpo afetadas. Se a m�o esquerda n�o parece responder �s ordens do c�rebro, � a m�o direita, a boa, que � imobilizada: o paciente que se vire com o bra�o afetado. Pode parecer cruel, e certamente � frustrante no in�cio, mas os resultados aparecem �s vezes j� na mesma semana. O c�rebro abre m�o da ap�lice de seguro que favorece o lado bom, e a m�o afetada recupera os movimentos � medida que o c�rebro se reorganiza. N�o que a les�o desapare�a, mas os circuitos restantes, face � demanda, d�o um jeito de assumir as fun��es perdidas.
Claro que voc� j� sabia que aquela ap�lice maravilhosa e baratinha n�o � necessariamente uma boa pedida. At� no caso do seguro do c�rebro o barato pode sair caro: ler com aten��o as letrinhas mi�das no p� da p�gina pode at� deix�-lo ciente do problema, mas n�o h� como voltar atr�s. Esse seguro vem de f�brica...
www.uol.com.br/cienciahoje/cerebro/cn14.html
Suzana Herculano-Houzel
O C�rebro Nosso de Cada Dia
06/12/02
Fonte:
Bury SD, Jones TA. Unilateral sensorimotor cortex lesions in adult rats facilitate motor skill learning with the "unaffected" forelimb and training-induced dendritic structural plasticity in the motor cortex. Journal of Neuroscience 22, 8597-8606 (2002).
Saiba mais sobre a parceria entre a
CH on-line e O C�rebro Nosso de Cada Dia
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