Adeus ao corpo é o nome de um livro do antropólogo francês David Le Breton, publicado pela editora Papirus. O autor é professor da Universidade Marc Bloch, da cidade de Estrasburgo, fronteira da França com a Alemanha. Não confundi-lo com Philippe Breton que tabém vive em Estrasburgo e escreveu uma história da informática, publicada no Brasil pela UNESP. A obra de David Breton apesar de ser uma pesquisa com rigor acadêmico pretende ser acessível ao grande público. Comento o livro porque penso que o autor concordaria com algumas das teses defendidas por Janice Walton-Hadlock, cujo livro sobre medicamentos tem sido citado neste blog, do qual Hugo Engel Guterres e eu traduzimos dois capítulos que estão disponíveis na pasta de arquivos do fórum de Cláudia Streva (http://health.groups.yahoo.com/group/recuperacaodoparkinson/
).
Qual é a novidade? Por que o meu interesse pelas idéias do senhor Le Breton e pelo seu livro? A rigor, não há novidades. O que me chamou atenção foi o fato do assunto medicamentos estar sendo tratado por um acadêmico, supostamente com método cientifico, longe do contexto especulativo ou das “práticas alternativas” com que freqüentemente são rotulados os trabalhos de Janice Walton-Hadlock.
Para dar uma amostra das idéias do autor e despertar a curiosidade dos leitores deste blog para a obra, transcrevo um trecho do segundo capítulo intitulado “A produção farmacológica em si”:
“A modernidade elevou as emoções à dignidade (científica) de reações químicas. O usuário comum dos psicotrópicos vive a si mesmo como uma espécie de console ligada a um corpo do qual ele programa à vontade os desempenhos afetivos. De uma maneira geral, as técnicas de seu ambiente ensinam-lhe uma moral pragmática da melhor eficácia, sem preocupação real com as conseqüências a curto ou a longo prazo desse recurso. Elas induzem o sentimento difuso de que há soluções para tudo, mesmo para a vontade de ampliar infinitamente sua capacidade de trabalho ou de tornar finalmente a ter um sono tranqüilo. Uma gama ampla de produtos, semelhantes ao órgão de humor de P.K. Dick, está à disposição de qualquer indivíduo que deseja mudar de humor ou de estado de vigilância sem ter de se entregar ao tempo para conquistar o estado psicológico desejado, ou desenvolver uma disciplina para a qual não tem paciência. Supostamente, o produto ingerido suprime a duração na obtenção do resultado: propicia o estado desejado no momento desejado sem esforço particular do indivíduo que só tem de estender a mão até seu armário de medicamentos. Ele o livra de sua ansiedade ou de seu cansaço, dá-lhe a força ou a vigilância da qual necessita. Economiza para ele, desse modo, uma análise mais intensa do mal-estar – o protesto do corpo é entravado, força-se seu “funcionamento” graças a uma instrumentação bioquímica que o refreia. Tudo isso até um certo ponto, pois o uso desses produtos tem às vezes efeitos colaterais ou indesejados (nota 2: não falaremos disso aqui. Nosso objetivo é erigir uma espécie de antropologia da ingestão desses medicamentos no contexto da vida cotidiana, é compreender seu deslocamentos para fora de sua referência médica e sua promoção a técnicas de gestão da vida cotidiana. Digamos apenas que os efeitos colaterais produzidos pelo consumo regular do produto reintroduzem, como de contrabando a ambivalência que o individuo acreditava estar suprimindo)”. Fonte: BRETON, David. Adeus ao corpo – Antropologia e Sociedade. Papirus Editora. Campinas, S. Paulo, 2003, p. 61.
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