sexta-feira, 5 de março de 2004

JC e-mail 2471, de 26 de Fevereiro de 2004.
Entrevista com Miguel Nicolelis, criador do chip no cérebro que dá movimento a paralíticos e do Instituto Internacional de Neurociência de Natal


'Esta técnica pode recuperar o movimento em pacientes severamente paralisado'

Helena Celestino escreve de Nova York para 'O Globo':

A revista do respeitado Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês) publicou a lista das dez tecnologias que vão mudar o mundo e a invenção do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis foi a número um.

Em breve, ele estremecerá a comunidade científica com a publicação de um estudo que abre caminho para recuperar o movimento de paralíticos. Nicolelis já tinha feito macacos controlarem com o cérebro um braço mecânico para jogar videogame e no mês passado, pela primeira vez, reproduziu a experiência com seres humanos na Universidade de Duke (Carolina do Norte).

'Esta técnica pode recuperar o movimento em pacientes severamente paralisados', conta.

Eis a entrevista:

- Qual é a base da sua pesquisa?

Miguel Nicolelis - Criamos um método para registrar a atividade de centenas de células cerebrais simultaneamente e conseguir olhar, pela primeira vez na história da neurociência, como um grande circuito neural funciona. Tudo o que fazemos depende da atividade elétrica coordenada de milhões de células, espalhadas pelo cérebro, que definem nossa memória, nossos anseios, nossos medos, movimentos e falas. Tudo o que representa a atividade humana e de outros mamíferos depende de grandes circuitos cerebrais. Um dos grandes mistérios é como estes circuitos funcionam. Essa é a grande fronteira e foi o que identifiquei como a grande questão da ciência moderna. Todo mundo achou que eu era louco na época.

- Quando o senhor conseguiu fazer um macaco mover um braço artificial, deixaram de achar loucura, não?

Nicolelis - Nada como sobreviver para ver a moeda virar. Os macacos aprenderam a usar o seu próprio pensamento, os sinais elétricos que vêm do seu cérebro, para mover um braço mecânico. Qualquer pensamento é definido por essa tempestade elétrica que invade nosso cérebro, tudo o que imaginamos está sendo codificado por esta grande onda elétrica que varre o cérebro e a questão é como isso acontece. O que mostramos é que com esta técnica podemos treinar um animal para usar sua atividade cerebral para controlar um braço mecânico. O animal aprendia a usar o braço mecânico para jogar uma grande variedade de videogames.

Como isso foi feito?

Nicolelis - O animal aprendia com informações que recebia do robô. Temos evidências de que o cérebro do animal incorporou esse braço mecânico como se fosse um terceiro braço. A partir daí, ele não tinha dificuldade para utilizar o braço mecânico ou o seu próprio braço. Quando aprendia que podia usar o braço mecânico, ele relaxava totalmente os músculos de seu próprio braço e confiava no braço mecânico para realizar as tarefas. Isso ofereceu uma prova de que pacientes que não podem se mexer mas conseguem pensar em como se mexer, já que o aparato cerebral ainda está presente, um dia vão recuperar os movimentos. Se você tem uma lesão na medula, a razão pela qual você não pode se mexer é que os sinais produzidos no cérebro não chegam nos músculos. Nossa idéia é criar um desvio dessa lesão e pegar os sinais que estamos tirando do cérebro e enviá-los para um braço mecânico ou para o próprio braço do paciente e assim reproduzir suas intenções motoras.

- O senhor já está trabalhando com seres humanos?

Nicolelis - Temos um trabalho que vai sair daqui a algumas semanas. Vamos mostrar que tudo o que vimos em macacos se reproduz em seres humanos, o que consolida a idéia de que esta técnica pode recuperar movimentos de pacientes severamente paralisados. É a primeira demonstração clínica, foi um experimento que fizemos nas últimas semanas na Universidade de Duke. Não posso falar ainda sobre o que aconteceu, vai ser publicado numa revista científica nas próximas semanas.

- A experiência demonstrou que é possível fazer um paralítico andar?

Nicolelis - Sim. Ainda não fiz um paralítico andar, mas é o grande sonho, estamos chegando lá. Vai acontecer mais depressa do que imaginamos. Os cientistas aprendem a não fazer previsões do futuro, mas tenho a sensação de que com a experiência das últimas semanas cortamos em alguns anos o futuro. Esta pesquisa específica começou há sete anos.

- Os movimentos seriam recuperados por meio de uma prótese implantada no cérebro?

Nicolelis - Uma prótese miniaturizada, um microchips, igual a um marcapasso cardíaco. Na verdade, um marcapasso cerebral que transmitiria sinais do cérebro para um braço mecânico que não precisará estar do lado do paciente. Mostramos que um macaco podia controlar um braço mecânico aqui na Universidade e pela internet, enviamos os sinais para o MIT, em Boston. O robozinho de Boston foi controlado ao mesmo tempo do que o de Duke pelo macaco. O jornal de tecnologia do MIT, o mais importante do mundo, publicou a lista das dez tecnologias que vão mudar o planeta no próximo século e a nossa foi a número um.

- Como o chip interpreta as ondas cerebrais?

- Por uso de modelos matemáticos em tempo real. Isso é algo que só nós desenvolvemos. Os modelos matemáticos rodam em tempo real e permitem fazer a tradução dos sinais elétricos do cérebro para comandos computacionais que o robô pode entender. Criamos a interface cérebro-máquina.
- As máquinas se movimentam por meio da força do
pensamento. É isso?
- É isso mesmo . Só um brasileiro para criar uma loucura dessas.

- É correto imaginar que o ser humano vai incorporar braços, pernas mecânicos, câmeras, vai virar um homem-máquina?

- Nós brasileiros já começamos este processo há 40 anos, quando aprendemos que era possível incorporar uma bola ao cérebro, a única razão por que ninguém consegue ganhar da gente. Você conhece o ditado que craque dorme com a bola porque já nasceu com a bola? Pois é, a minha teoria sugere que a razão pela qual somos tão bons é porque desde pequenos usamos a bola como extensão do nosso pé. O nosso cérebro incorporou a bola às representações do corpo que temos.

- O senhor é apaixonado por futebol?

Nicolelis - Infelizmente. Ocupa muitos neurônios. Poderia liberar para o trabalho muitos neurônios que estão incorporados ao destino do Palmeiras.
(O Globo, 22/2)
Noticia enviada pelo Dr. Emilio Takase

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