domingo, 27 de junho de 2004

RELIGIÃO E EVOLUÇÃO

RELIGIÃO E EVOLUÇÃO
27/06/2004 - Martha Medeiros - Não busco a polêmica, procuro a conversa, mas como falar de religião sem provocar? Vou falar sobre as células-tronco. Não é provocação. É reflexão. Publicado no jornal Zero Hora.
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Polemizar é um recurso que costuma ser bem-sucedido entre colunistas que sobrevivem de dar opinião sobre tudo. Não é o que busco, prefiro conversas menos alteradas, mas como falar de religião sem provocar uns tantos? Não gostaria que soasse como provocação, e sim como reflexão.

Nos meus acessos de idealismo, me pergunto: por que não é possível ser cristão, freqüentar a igreja, ter fé, amar a Deus e ao mesmo tempo ser sensato, racional e atualizado? O Papa, esta figura tão poderosa e carismática, segue sendo porta-voz da condenação do uso de contraceptivos, mesmo diante de inúmeras nações superpovoadas e carentes. Também não aceita que dois namorados tenham relações sem estar casados: sexo antes do matrimônio é pecado, mesmo sabendo que se os dois não se entenderem na cama o relacionamento pode ir à pique. E o absurdo maior, segue condenando o uso da camisinha, como se a Aids fosse uma invenção do demônio, como se o vírus fosse um castigo para os que desobedecem os mandamentos. Não entendo e nem tentem me explicar, ninguém vai me convencer de que esta visão obtusa da vida tem lógica.

Até aí, nenhuma novidade. O que tem me estarrecido atualmente é a dificuldade que os cientistas estão tendo para liberar pesquisas com células-tronco para encontrar a cura de doenças sérias como Alzheimer, diabetes, esclerose, Parkinson, paralisia. Muitos articulistas têm escrito sobre isso, mas resolvi unir minha voz à deles pois quanto mais pressionarmos, mais rápido avançaremos nesta questão.

Li duas semanas atrás uma matéria com um casal gaúcho que congelou as células retiradas do cordão umbilical da filha recém-nascida para o caso de alguma eventualidade no futuro. Estão certos. Espero que isso se torne um procedimento comum e barato, mas é preciso ir além, é preciso que se evolua na pesquisa de células-troncos retiradas de embriões que não se desenvolveram, e também na pesquisa sobre clonagem de órgãos. É um assunto que não domino, admito, mas tudo o que pode ser benéfico para a humanidade tem meu apoio. O que eu não apóio é que os benefícios que a ciência possa trazer tenham que passar antes por uma ética espiritual. Mulheres sofrem abortos espontâneos e abortos provocados - isso não vai mudar jamais, não há religião que consiga esse milagre. Portanto, os embriões continuarão indo para a lata de lixo, quando poderiam estar salvando outras pessoas. Ninguém está propondo que se realizem abortos com este propósito, o que se quer apenas é aprofundar o conhecimento e buscar novas alternativas para se viver mais e melhor.

Pesquisas com células-tronco podem gerar descobertas revolucionárias. A vida é nosso bem mais sagrado, que ela seja protegida e prolongada. Sem culpa, sem castigo, sem penitência, sem nenhum desses vocábulos fartamente usados entre os fiéis. Deus é amor? Então, por amor ao próximo e a todos nós, deixem a ciência apitar mais.

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