Por que comigo?
A indagação é sempre a mesma, mas o tom e a motivação variam. Às vezes, a pergunta tem a conotação de culpa: alguma coisa eu fiz de errado. E aí surge uma outra e inquietante questão: qual foi o erro cometido? E o erro cometido pode ser qualquer coisa, da mais trivial à mais grave. Em A Morte de Ivan Illich, a bela novela de Leon Tolstoi, acompanhamos a agonia do protagonista, um bem-sucedido e arrogante advogado que tem uma enfermidade fatal. Lá pelas tantas, ele chega à conclusão de que tudo foi o resultado de ter batido com o ventre em uma mesa. Não há a menor lógica nesse raciocínio, mas ele pelo menos proporciona uma explicação, e o paciente necessita desesperadamente de uma explicação. Que às vezes pode ser francamente paranóica.
É o caso da pessoa doente que se julga vítima de uma maldição, de um feitiço. E o pior é que esse tipo de temor pode gerar conseqüências. O fisiólogo americano Walter Cannon estudou no Haiti o fenômeno conhecido como a morte vodu. Pessoas que se julgavam alvo desse feitiço muitas vezes morriam (vítimas de um ataque cardíaco, em geral) por causa do estresse desencadeado pelo pavor.
Por último, e mais importante, o questionamento pode ser feito de forma equilibrada, serena. Diante da vicissitude, a pessoa reexamina sua história de vida em busca de erros e de equívocos, que muitas vezes podem ser corrigidos.
Muitos deixam de fumar quando aparecem os primeiros sinais de doença pulmonar ou cardíaca. Algumas vezes, já é pouco o que se pode fazer, mas, ainda assim, o ensinamento pode ser transmitido a outros. Ou seja: quando a pergunta "Por que isso aconteceu comigo?" faz parte de um processo de auto-investigação, sem culpa, sem paranóia, ela sempre dever ser feita. Entender a si próprio é a expressão maior de nossa humanidade.
Fonte: Zero Hora.
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