terça-feira, 14 de dezembro de 2004

DESORIENTAÇÃO TEMPORAL



“(...) nada nos resguardaria de mergulharmos na mais profunda ignorância quanto ao curso do tempo, e de perdermos, por conseguinte, a noção da nossa idade. Esse fenômeno é possível, já que absolutamente não temos no nosso interior um órgão para o tempo, o que nos torna incapazes de avaliar este apenas aproximadamente pelas nossas próprias forças e sem nos basear em indícios exteriores. Alguns mineiros soterrados e impossibilitados de observar a sucessão de dias e noites calcularam, quando salvos, fosse de três dias o tempo que haviam passado nas trevas, entre a esperança e o desespero. Na realidade se haviam escoado dez dias. Seria natural se, nessa situação angustiosa, o tempo se lhes houvesse afigurado longo. No entanto, se reduzira para eles a menos de um terço da sua duração objetiva. Parece, portanto, que sob condições desconcertantes a impotência humana tende a subestimar antes do que a exagerar o tempo por que acaba de passar.”
(In MANN, 2000, p. 742)


INSUFICIÊNCIA (DE DOPAMINA?)



“ – Muito bem, meu filho. Muito bem, camarada. Insuficiência? Ótimo! Ótimo e também horrível. Irresponsável? Excelente! Dádivas? Não estou de acordo. Exigências! Exigências sagradas, femininas, que a vida faz à honra e ao vigor masculino.” (...) “ – Irmão! – Disse Peeperkorn, presa de uma embriaguez livre e altiva. Atirou para trás o corpo potente, e estendendo o braço por sobre a mesa, golpeou-a com o punho frouxamente cerrado. – Está projetado... projetado para breve, embora a ponderação, por enquanto... Bem, basta! A vida, meu caro jovem, é uma mulher, uma mulher estatelada, com os seios exuberantes e apertados, com o ventre amplo e macio entre os quadris salientes, com braços delgados, coxas opulentas e olhos semi-cerrados, uma mulher que nos desafia magnífica e zombeteiramente e reivindica todas as energias da nossa virilidade, que se deve confirmar ou perecer perante ela... Perecer, jovem! O senhor percebe o que isso significaria? A derrota do sentimento em face da vida, eis o que é a insuficiência para a qual não há nem perdão, nem compaixão, nem dignidade, mas que é inexorável e sardonicamente reprovada, liquidada – compreende, jovem? - e vomitada... Ignomínia e desonra são palavras brandas em comparação com essa ruína e bancarrota, com essa pavorosa vergonha. Ela é o ponto final, o desespero do inferno, o fim do mundo...” (Idem, 2000, p. 774)



MEDICAMENTOS E VENENOS



“(...) Mas, quanto ao mundo das substâncias químicas – disse Peerperkorn, que se soerguera no travesseiro e elevava o anel da precisão e os dedos lanciformes ao lado da cabeça com os olhos apagados e com os arabescos da fronte -, quanto às substâncias químicas, a verdade era esta: todas elas eram ao mesmo tempo medicamentos e venenos; a farmacologia e a toxicologia eram uma e mesma coisa; os doentes se curavam por meio de tóxicos, e o que era considerado como portador da vida podia, sob certas circunstâncias, produzir um espasmo que matava no lapso de um segundo.” (Ibidem, 2000, p. 792)


Fonte: MANN, Thomas. A montanha mágica. Tradução de Herbert Caro. Editora Nova Fronteira, Rio, 2000.

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