Células-tronco - Uma prioridade nacional?
03 de dezembro de 2005 - HEITOR C. G. FRAGA/ Médico, neurologistaA pesquisa de células-tronco é uma necessidade mundial, poderá no futuro revolucionar o tratamento de várias doenças graves, hoje consideradas incuráveis. Sabe-se que tais pesquisas estão no mundo todo em um estágio muito inicial. Desconhece-se o potencial terapêutico destas para um grande número de doenças. Temos como exceções o tratamento das leucemias e algumas formas de anemia onde já são usadas consensualmente em humanos.
O uso das células-tronco em outras áreas é praticamente restrito a modelos em cobaias (camundongos), com exceção de alguns poucos "trials" com critérios de inclusão muito rigorosos,pois ainda não se tem controle sobre a segurança de seu uso em humanos. As dúvidas são enormes, tanto em relação à viabilidade dessas células (as embrionárias sabe-se são mais eficazes), quanto ao seu benefício e inclusive ao risco de desenvolvimento de tumores advindos destes implantes.
O que se questiona , no entanto, atualmente, em nosso país, é a liberação de verbas públicas vultosas do Ministério da Saúde, que está ocorrendo inclusive para hospitais privados, com o objetivo de financiar pesquisas, altamente questionáveis do ponto de vista ético. Pois estão sendo usadas células-tronco adultas autólogas em pacientes em fase aguda de doenças, como as isquemias cerebrais com evolução natural muitas vezes favorável e inclusive em doenças complexas como a esclerose múltipla, que apresenta freqüentemente oscilações espontâneas na sua sintomatologia.
Vemos nos meios de comunicação notícias freqüentes de hospitais prestes a fechar ou suspendendo atendimento a populações carentes pelas verbas minguadas que recebem do SUS, medicamentos que faltam para tratar de doenças comuns que atingem em maior parte estas populações. Exemplo disso são a falta de medicações para a tuberculose, hipertensão, diabetes, cardiopatias, hepatite e filas para realizarem procedimentos cirúrgicos simples como colecistectomias, hernioplastias e assim por diante. Além disso, o orçamento previsto para a saúde em 2006 foi reduzido em cerca de R$ 1,2 bilhão.
Este é o grande paradoxo em um país pobre como o nosso. Deve o setor público financiar tais pesquisas? Novamente temos como exemplo a grande potência americana, onde a ciência avança com verbas principalmente de grandes laboratórios farmacêuticos, empresas privadas, ONGs e filantropos milionários.
Não há dúvida que temos que progredir cientifica e tecnologicamente, mas será esta a nossa prioridade no momento? Ora, dirão os incautos ou oportunistas: somos um país pioneiro no uso de células-tronco no mundo.
É, realmente, nos tempos que correm, mais importante que os fatos são as aparências. Afinal, no próximo anos teremos eleições e as notícias na mídia sobre uma panacéia para todas as moléstias são realmente bem-vindas, mesmo que a população persista na fila para medicamentos e cirurgias simples e acessíveis, mas difíceis de conseguirem.
Fonte: Zero Hora.
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