quinta-feira, 29 de junho de 2006

O Doente Crônico e suas Figuras de Apego
A tolerância é filha do tempo. Suportamos uma falha, uma dor, um mal-estar, uma apreensão, um medo, ou não suportamos outros tantos eventos, sensações e sentimentos de acordo com o tempo exigido por tais experiências. Exemplo corriqueiro do que dissemos são as frases do tipo "vai doer mas é rapidinho" ou "tenha paciência, é por pouco tempo" ou "sentirá só um breve desconforto" ou "não há mal que nunca se acabe". Será?

O portador de doença crônica faz com que o tempo seja filho da tolerância. O que ele sabe, ou pensa saber, é que coisas ruins estão acontecendo, que não existem prazos e não há nada que ele próprio possa fazer. Acordar diariamente com a aridez dessas três conclusões é uma sobrecarga fatal para qualquer ego e um desgaste extra para os circundantes. Estar sempre tranqüilo e esperançoso seria uma exigência cômoda para muitos, exceto para o paciente para o qual esse comportamento seria tão funesto quanto o anterior, além de carregado de idiota onipotência; uma ditadura da ansiedade. "Algumas situações são tão ruins que é insano permanecer são", recomendamos aqui motivados por Nietzsche, pois tanto o paciente quanto aqueles que o cercam com o compromisso de cuidado, podem dispor da saúde libertária de um irracional comportamento afetivo e das atitudes humanas e peculiares do não-controle. Alguns preferirão “chutar o pau da barraca”, outros “chutarão o balde”, outros ainda irão caminhar no parque ou assistir a um concerto, e não importam os estilos, importa é que aconteça, como não importa o tempo que um pássaro leve para cantar, importa é que cante, disse o poeta. Tudo deixa de sobrecarregar quando é aceito. Ouvindo de forma verdadeira, despida da ansiedade de tranqüilizar para calar, todos poderão se sentir melhor e mais fortes, aptos a responder ao destino, com o crescimento despojado e virtual que faz do tempo filho da tolerância, mentor da juventude.

Nesse contexto do vir a ser, o doente aprende a desenvolver uma relação holísticamente mais amorosa consigo mesmo, fornecedora de um crescimento emocional, psicológico e espiritual que se refletirá em uma vida pós-doença com uma melhor performance que a anterior, mais ampla e sustentando seu verdadeiro self. Dessa forma ele estará ativamente lutando, cúmplice da vida e pela sua própria vida, aumentando sua habilidade para lidar com o sofrimento. (...)

Extrato de capítulo do livro Doença de Parkinson - Paciente, Familiares e Cuidadores - POA - Gráfica Editora Pallotti - 2004 - Dr. Telmo Tonetto Reis, MD

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