Quando recebeu o prémio Bial, em 2009, disse que “um cérebro diferente não é necessariamente sinónimo de um cérebro doente ou com menores capacidades cognitivas”…
Entrevista com Miguel Castelo-Branco (prof. medicina Univ. Coimbra)
Domingo, 03 de Junho de 2012 - Devemos ser positivos na forma como abordamos a vida. E isto é verdade porque há doenças com forças e fraquezas. Às vezes, a própria deficiência esconde talentos. E isso vê-se no autismo – eles têm uma capacidade de concentração e de entrar em rotinas, talvez por estarem muito vocacionados para comportamentos repetitivos. Por isso, muitas vezes, aquilo que parece uma doença é um estilo cognitivo que nós temos que aprender a respeitar. Todos temos forças e fraquezas, sejam elas clínicas ou não. Recordo-me sempre do caso de um húngaro, que tinha sido campeão olímpico de tiro e na guerra foi-lhe amputada uma mão. Ele acabaria por ser campeão olímpico com a outra mão. Nunca sabemos o que é que a vida tem para nos oferecer. Todos os nossos cérebros são diferentes. Há cérebros doentes e mesmo esses podem dar muito. E é essa perspetiva positiva que devemos ter. (...)
Dessa forma, poderão ser testados novos tratamentos, numa fase mais precoce da doença?
A grande frustração nestas doenças é que os tratamentos têm sido aplicados em fases muito tardias da doença. Aliás, o PIB e a ressonância magnética mostram que na doença de Alzheimer há uma enorme atrofia cerebral e uma grande acumulação da amilóide na altura do diagnóstico. Mesmo a doença de Parkinson: os primeiros sintomas aparecem quando quase metade dos neurónios de uma determinada região do cérebro (que é a substância nigra), morreram. Por isso, não interessa tratar tão tarde. Os resultados, em todas estas doenças neurodegenerativas, têm sido um bocadinho desanimadores. Com a introdução destes novos marcadores precoces de doença, abrem-se as portas para se conseguir testar tratamentos muito mais cedo.
Que outras moléculas poderão detetar doenças?
No caso da doença de Parkinson conseguimos, com o PET ou outras técnicas de medicina nuclear, quantificar por exemplo a quantidade de transportadores de dopamina (a molécula envolvida na doença) ou de receptores desta molécula. No futuro, se calhar, vão ganhar maior importância outras moléculas que são mais específicas. Por exemplo, estou a pensar no cancro da mama: há moléculas que nos vão permitir dizer se um tumor tem recetores de hormonas ou não. Portanto, podemos ir a muito mais detalhe e entrar na medicina centrada na pessoa. A grande vantagem das técnicas que temos aqui no ICNAS, é essa noção que cada pessoa é um caso. Tiramos uma fotografia a três dimensões de uma pessoa. Não dizemos apenas que tem a doença de Alzheimer. Não: dizemos que tem o marcador A, B ou C, que tem esta história cognitiva. Portanto, cada caso é um caso. E estas técnicas permitem-nos até perceber qual é o tratamento melhor para esta pessoa, qual a progressão que ela vai ter. A grande vantagem dos estudos que nós efetuamos é essa: a de tratar a pessoa como “aquela pessoa”.
Foi esse contacto com as pessoas que o fez escolher Medicina?
Eu gostava da área da psicologia e das neurociências sem saber que isso alguma vez viesse a estar relacionado com a minha atividade profissional. Na altura de entrar para a faculdade, hesitei muito entre a matemática e a medicina, mas depois pensei que a medicina me traria um lado humano que não teria tanto se fosse para matemática. Gosto muito do contacto com as pessoas.
Esse contanto com dos doentes mantém-se?
Mantém-se. Tenho muito contacto com doentes por causa dos projetos científicos. Não é um contacto para diagnóstico, embora muito da atividade na investigação acabe por ter impacto no diagnóstico. Temos projetos com certas doenças que até têm um impacto social grande, como ao autismo, a síndrome de Williams, doenças que levam a problemas de integração social. Portanto, tenho tido um contacto bastante intenso com famílias. Isso também acontece nas doenças ligadas ao envelhecimento, como Parkinson e Alzheimer, porque o enquadramento das famílias não é apenas explicar o diagnóstico: é explicar, também, a parte psicológica. (segue...) Fonte: As Beiras.pt.
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