quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Maconha, o remédio

por Suzana Herculano-Houzel.
18/12/2012 - Escrever aqui duas semanas atrás que a maconha faz mal -deixa sequelas cognitivas quando seu uso é iniciado na adolescência- me rendeu algumas mensagens de apoio e várias de protesto.

Os mais raivosos reclamavam da mensagem negativa sobre sua droga recreativa predileta, temerosos de que a disseminação da mensagem "faz mal, sim" prejudicasse seu pleito pela legalização. Mas outros reclamaram, um pouco mais educadamente, por eu não ter comentado sobre o outro lado da maconha: seu uso medicinal.

De fato: a maconha tem um lado clinicamente útil. Devido à sua ação pró apetite e contra enjoo, ela é particularmente interessante para pacientes em quimioterapia, que podem sofrer dias a fio com náuseas fortes, e para pacientes com câncer terminal, que perdem a vontade de comer e assim se enfraquecem ainda mais. E, naturalmente, o prazer propiciado pela droga nesses casos é um bônus muito bem-vindo.

Também nisso a maconha é como tantas outras substâncias, que podem ser usadas medicinalmente, embora tenham efeitos nocivos para o corpo. A digitalina, por exemplo, é um veneno capaz de matar por parada cardíaca. Mas, em doses controladas, é um remédio contra a insuficiência cardíaca.

Morfina, usada de modo controlado em hospitais, é uma droga potente contra a dor, embora leve rapidamente ao vício e ainda apresente o risco de matar o paciente por parada respiratória.
Até a cocaína já teve uso clínico, como anestésico local.

A maconha, portanto, não é nem só boa nem só ruim. É uma questão de circunstâncias. Sim, ela vicia e faz mal: como disse aqui na semana passada, seu consumo por adolescentes deixa sequelas cognitivas detectáveis no QI e que se estendem a vários domínios -memória, raciocínio, linguagem.

Mas, para um paciente com câncer avançado, fazendo quimioterapia para ganhar mais alguns anos de vida, o risco de o uso da maconha levar ao vício ou deixar sequelas cognitivas é, nessas circunstâncias extremas, a menor das preocupações.

De qualquer forma, usuários, não se preocupem (muito): nos países que legalizaram a maconha, o maior argumento usado para isso não foi a afirmação de que a droga "não faz mal" (pois faz), e sim a constatação de que a proibição gerou um problema ainda maior para as demais pessoas, não usuárias, do que todos os inconvenientes do vício: a violência urbana associada ao tráfico ilegal. Fonte: Folha de S.Paulo.

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