quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Golpe de asa no sequeiro





GOLPE DE ASA NO SEQUEIRO…
Rogério Martins Simões

Inocento as minhas mãos.
Invento gestos.
Golpeio convenções.
Antecipo decisões
Quero chegar ao cume…
Acender o lume
E descer a vereda num sopro.
Sopra sobre mim, dá-me o trilho…
Golpe de asa no sequeiro.

Inocento a vida.
Piso um milho que suga um canavial.
Debruço-me nas tábuas silenciosas,
O arrabalde enxota um pombo num corte de asas.
Vou a caminho,
Se chegar tarde tarda o destino.
Chegará a tua vez…
Chega a todos,
Quero chegar ao cimo da rampa.
Não! Não preciso de campa,
E de bichinhos da seda,
Acendam o lume!
Golpe de asa no sequeiro


Inocento a minha fala. De que falo?
Falo de sofrimento?
Fala comigo!
Faz um gesto.
Falo!
Golpe de asa no sequeiro

Inocento a sorte. Que sorte?
Estou descalço…
Descalço os pés e coloco as botas das léguas cardadas…
Pesadas tréguas.
Falsas pistas,
Às riscas, no veludo,
É Entrudo e sambo!
Não! Não sei sambar!
Danço tudo…
Danço nas letras!
Basta um toque do moscardo e irei ao fundo.
A orquestra toca,
Na toca me afundo.
Do fundo me ergo, tudo confundo,
Volto ao colete-de-forças que me não dá tréguas.
Golpe de asa no sequeiro


Inocento a pressa. Não me empurres!
Desata o atilho e solta o rouxinol …
Golpe de asa no sequeiro

Inocento a ventura.
Deram-me uma haste e um pano amarelo
Fiz mastro e uma vela.
Não sei velejar!
Tropeço num novelo,
Estatelo-me ao vento.
Arrumo as botas num vão-de-escadas
Escadas não são.
Que sorte: uma tábua de salvação.
Golpe de asa no sequeiro

Inocento o engano!
Troco uma besta
Por dois cavalos a motor.
Trago um guindaste preso a uma retroescavadora.
Que faço com a cenoura?
Que faço com a dor?
Estendo o pano e solto a alma…
Golpe de asa no sequeiro

Inocento o meu coração.
Na escada, que me leva ao azul sereno, ato um laço!
Deixa que te toque no peito.
Abraço-te!
Sinto o pulsar de uma cerejeira…
Golpe de asa no sequeiro

Inocento a esperança.
Entrego ao destino tudo o que me cansa.
Que me cansa?
A falta de esperança?
Este viver desesperado,
Na ponta de uma navalha afiada.
Estou em brasa no cativeiro
Acerto o passo nas limitações…
Não!
Nas figueiras também crescem figos secos e ovos-moles;
Os gaiatos brincam com estrelas;
O sol brilha;
A chuva molha;
A noite apadrinha os beijos;
O vento sopra e dança
O luar distende os versos
Com versos de esperança.

Secam as lágrimas no estendal
Já partiu o aguaceiro…
Golpe de asa no sequeiro…

27-10-2011 00:08:08
 POEMAS DE AMOR E DOR
BOM ANO

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