domingo, 25 de abril de 2004

Celulas-tronco

CLONAGEM E IRRACIONALIDADE
São diárias as notícias e argumentos utilizados para tornar a clonagem humana para obtenção de células-tronco ilegal. Geralmente, são reflexões que mexem mais com o imaginário e emocional das pessoas do que com sua lógica e seu racional.

Ouvimos que a clonagem pode ameaçar a dignidade do clone, ou que os cientistas estão brincando de Deus e tentando criar um futuro desumanizado, gerando castas como em uma colméia, em que o genoma de inúmeros indivíduos será único e padronizado. Estes argumentos nos deixam a impressão que a clonagem terapêutica humana será condenada por todos ou considerada um crime contra a Humanidade.

Sabemos que inúmeros avanços científicos relevantes, que hoje são vistos com a maior naturalidade, foram condenados pelos valores morais e religiosos enraizados em nossa sociedade.

Como bons exemplos temos o caso de Galileu, da anestesia, das vacinas, dos transplantes de órgãos, da fertilização in vitro (FIV) e mais recentemente dos animais e plantas transgênicos, entre outros. A anestesia, as vacinas, os transplantes e a FIV são técnicas utilizadas normalmente no mundo de hoje.

O que podemos concluir desses fatos é que o ser humano possui reações imediatas que são emocionais e morais e não induzidos pela lógica e bom senso ou com uma visão do futuro. Quantas pessoas morreriam ou sofreriam hoje sem vacinas e anestesias?

Acaba de ser divulgado pela impressa mundial que cientistas sul-coreanos deram um enorme salto em direção à clonagem de embrião humano para obtenção de células-tronco — células que podem substituir tecidos de indivíduos que estão doentes ou com algum tecido lesado.

Os cientistas utilizaram 242 óvulos humanos para realizar a clonagem. Destes, 20 embriões foram gerados e usados para extração das células-tronco. Conseguiram produzir somente uma linhagem de células cultivadas.

Por esta técnica será possível, no futuro, um coração com uma parte de tecido necrosado ter este tecido substituído por um novo músculo cardíaco, célula beta das ilhotas pancreáticas não funcionais serem substituídas por células normas produtoras de insulina ou células nervosas ativas serem usadas para tratamento da doença de Parkinson.

Mas ainda há um longo caminho pela frente para chegar ao processo terapêutico. Os cientistas produziram até agora somente células-tronco, as quais devem ser transformadas em células específicas de tecido cardíaco, pancreático ou nervoso, por exemplo.

No entanto, esta descoberta é um avanço. A clonagem terapêutica deixou de ser um sonho. Não se deve restringir a pesquisa de células-tronco no país. Isto pode significar desvantagens no domínio científico e tecnológico que hoje é sinônimo de poder.

A idéia da clonagem terapêutica é criar tecidos geneticamente semelhantes aos dos pacientes, para não serem rejeitados. Os cientistas coreanos desenvolveram embriões que eram cópias genéticas das mulheres que doaram seus óvulos.

Para torná-las úteis à terapia, as células terão que ser transformadas em tecido-específicas, para serem inoculadas nos pacientes. Para evitar complicações colaterais, formação de teratomas, a população de células transformadas deve estar sem contaminação de outras células.

Alguns fazem objeções éticas ao trabalho com células-tronco porque ele envolve destruição de embriões; outros acreditam que é mais prático utilizar células-tronco de indivíduos adultos, o que não é eticamente e moralmente questionável. Entretanto, outros dizem que células adultas não se desenvolvem com facilidade fora do organismo e não são tão versáteis como as células embrionárias.

Homens e mulheres têm seus limites sociais. No caso da clonagem humana terapêutica, nós temos três alternativas de engajamento. Na primeira, podemos lutar contra o desenvolvimento científico e somar nossas forças às conservadoras que procuram deturpar toda nova tecnologia que poderá mudar o futuro do planeta. Na segunda, podemos ainda ficar sentados e passivamente ver o panorama do futuro que está vindo. Alternativamente, podemos ativamente participar da criação de um futuro melhor, no qual o ser humano usará os avanços tecnológicos para evitar ou tratar de doenças e o envelhecimento, aumentar a capacidade de viver e melhorar a qualidade de vida no planeta.

ELOI S. GARCIA é pesquisador e ex-presidente da Fundação Oswaldo Cruz. Fonte Jornal O GLOBO, Editoria: Opinião, Primeiro Caderno.

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