O diretor do Programa de Transplante de Medula Óssea e Cordão Umbilical do Chaim Sheba Medical Center, em Israel, Arnon Nagler, esteve pela primeira vez no Brasil para uma palestra, na semana passada, convidado pelo Centro de Estudos e Pesquisas da Clínica São Vicente, na Gávea. Ele veio mostrar sua experiência com a expansão das células-tronco do cordão umbilical e sua posterior utilização em adultos no tratamento de doenças cardíacas, diabetes e outros males degenerativos.
É importante guardar o cordão umbilical das crianças ao nascerem, como um investimento no futuro, ou o senhor acha que a tecnologia estará tão avançada que não será preciso o cordão da própria pessoa para curá-la?
ARNON NAGLER: As chances do uso de células e cordões umbilicais em transplantes são muito pequenas. Elas variam de 1/10.000 a 1/200.000, dependendo da doença. De cerca de 20 mil amostras salvas em bancos privados de cordões umbilicais nos Estados Unidos e em alguns outros países, há registro de 12 a 14 amostras usadas em práticas clínicas. Esses números estão em contrastes gritantes com o National Marrow Donor Program, o maior registro de células-tronco do mundo: de 2% a 3% de todos as 130 mil amostras de sangue de cordões públicos (perto de três mil) já foram usadas. Também para comparação, apenas de 0,2% a 0,3% de todos os doadores de tutano produziram células-tronco para pacientes necessitados. Há ainda a preocupação de que células-tronco de pacientes que devem desenvolver leucemia podem também apresentar alguma anormalidade genética, tornando-as não indicadas. A maioria dos investigadores acredita que as células alogênicas, de diferentes doadores, são o recurso ideal para tratamentos de males devido a um efeito que provoca o controle imunológico de desordens malignas, como tem sido demonstrado muito claramente na leucemia mielóide crônica. A idéia de salvar esse material para engenharia genética, como foi anunciado, não é baseada em premissas consistentes: a maioria das experiências hoje usa células-tronco para regenerar o miocárdio, como também foi demonstrado pelo grupo brasileiro do Hospital Pró-Cardíaco. Apenas recentemente células sangüíneas de cordões umbilicais alogênicas foram testadas em animais. O que está sendo anunciado como uma garantia para o futuro ainda não é recomendado como padrão de prática clínica. Como o enxerto de células-tronco demora para se recuperar, há limitações para uso em adultos. Em Israel, a maioria dos transplantes de cordões umbilicais é feita em crianças. Como a maioria das desordens hematológicas afeta pacientes acima dos 60 anos, novas estratégias devem ser implementadas. Um caminho para resolver estas questões é o uso de expansão de células tronco in vitro. Nós demonstramos essa capacidade de maneira muito bem-sucedida num modelo experimental que agora está sendo testado em casos clínicos. Essa pesquisa está sendo feita em colaboração com o MD Anderson Cancer Institute, em Houston.
Quais as doenças que os novos tratamentos à base de células-tronco podem curar?
ARNON NAGLER: Há muitas experiências clínicas com células-tronco no tratamento de isquemias cardíacas, desordens vasculares, desordens neurológicas, doenças degenerativas como esclerose lateral amiotrófica, mal de Parkinson, distrofia muscular, diabetes. O potencial pode até mesmo crescer se as regulamentações sobre o controle das células embrionárias forem menos restritivas. Há, sem dúvida, muitas preocupações éticas e eu acredito que será preciso alguns anos para que as células-tronco possam ser usadas livremente.
O custo dos tratamentos é impeditivo para a maioria da população?
ARNON NAGLER: Em Israel, o custo de um transplante das próprias células é de US$ 36 mil. Um transplante alogênico, de um doador da família ou de um doador desconhecido, está perto de US$ 70 mil. No Brasil, os transplantes podem chegar a US$ 90 mil. Esses custos devem ser comparados com os tratamentos muito caros, como o uso de Glivec no tratamento da leucemia mielóide crônica e de anticorpos monoclonais no tratamento de câncer.
Qual a sua avaliação da medicina brasileira para este tipo de tratamento? Como estão equipados hospitais e laboratórios?
ARNON NAGLER: Eu conheço o médico Daniel Tabak (ex-diretor de transplantes do Instituto Nacional do Câncer) há muitos anos. Nos últimos dez anos, eu colaborei com pesquisadores brasileiros muito brilhantes. Um deles é Vanderson Rocha, que trabalha em Paris e hoje é diretor do Leukemia Working, um departamento do European Bone Marrow Transplant Group, e ele tem sido muito ativo no desenvolvimento do Eurocord. O Eurocord congrega mais de 30 países que dividem informações sobre transplantes de células sangüíneas de cordões umbilicais. Mais recentemente, eu colaborei com um outro brasileiro, Marcos de Lima, que está coordenando uma série de estudos sobre o sangue do cordão umbilical no MD Anderson Cancer Institute, em Houston, nos Estados Unidos. Eu fico altamente impressionado com o nível da medicina no Brasil. Fonte: O Globo, Jornal da Família.
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