18/04/2004
Nas últimas dez semanas, você desvendou, junto com a gente, os mistérios do cérebro! Nós vimos que a visão, a linguagem, as emoções, a memória, na verdade não funcionam automaticamente. Tudo isso é resultado do trabalho veloz e ininterrupto de bilhões de células nervosas, os neurônios.
Agora, no último capítulo da série, nós perguntamos: será que existe uma receita para uma vida longa e saudável da supermáquina? A reportagem de hoje é sobre o futuro do seu cérebro.
Para os estudiosos do cérebro, Joe, ou JW, como é conhecido no mundo científico vale ouro. Ele sofria de uma epilepsia tão grave que os médicos tomaram uma decisão radical: cortaram quase toda a comunicação entre o lado direito e o esquerdo do cérebro.
“O hemisfério esquerdo tem linguagem, então ele consegue se expressar melhor, montar objetos, colocar uma seqüência de cenas numa seqüência lógica. O hemisfério direito não consegue traduzir isso em palavras, mas o raciocínio está lá”, explica Luiz Henrique Martins Castro, neurologista da faculdade de medicina da USP.
Por causa do cérebro dividido, Joe consegue proezas divertidas, como desenhar objetos diferentes ao mesmo tempo. Algo impossível para qualquer outra pessoa. Mas ao contrário do que pode parecer, os feitos de Joe não são uma vantagem.
“O cérebro não é feito pra gerar duas respostas independentes. Ele tem que gerar a melhor resposta. Nesse caso, a gente tem cada cérebro dando o melhor dele”, diz Luiz Henrique.
Em todo o mundo, há milhares de neurocientistas procuram desvendar os mistérios do cérebro. As pesquisas de vanguarda acontecem principalmente na área da bioquímica. O grande desafio é descobrir como são fabricados e como agem os neurotransmissores: as substâncias químicas que fazem as conexões entre os bilhões de neurônios.
Nos próximos anos, poderá haver uma revolução no tratamento de doenças como depressão, dependência química, esquizofrenia e Alzheimer e Parkinson.
“A doença de Parkinson é determinada pela degeneração progressiva, pela morte de células de forma cumulativa, que afeta uma região do sistema nervoso central, chamada substância negra”, esclarece Cícero Coimbra, neurocientista da FESP.
A substância negra, uma pequena área na base do cérebro, é responsável pelo primeiro impulso de todos os nossos movimentos. Qualquer lesão nessa área gera rigidez e tremores, principais sintomas do mal de Parkinson. A doença ainda não tem cura, mas já é possível retardar seus sintomas. O exercício físico, dentro dos limites saudáveis, é um grande aliado do cérebro. Esse foi o resultado de uma pesquisa da Universidade de São Paulo (USP), que comparou o comportamento cerebral de ratos sedentários e ativos.
“Animais em atividade física executavam tarefas de modo mais fácil, como atravessar uma plataforma com obstáculos, a capacidade de reter determinado tipo de informação, a capacidade de aprender informações”, afirma Gerson Chadi, médico pesquisador da USP.
De acordo com a pesquisa, a atividade física aumenta a produção de substâncias que protegem as células nervosas e garantem melhor conexão entre elas.
Existem boas promessas também nas pesquisas de outra doença neurológica até hoje sem cura: o mal de Alzheimer.
Alegre, ativa, Dona Lídia se diverte com uma boa prosa. O mal de Alzheimer impede que o cérebro dela armazene fatos recentes. Sem se dar conta, Dona Lídia vive no passado.
Domingo passado, você viu que existe no cérebro uma estrutura fundamental para a memória. É o hipocampo, que, como uma cola, fixa no cérebro os detalhes de cada cena ou fato importante. É justamente o hipocampo a área mais afetada pelo mal de Alzheimer.
Novas portas estão sendo abertas na pesquisa dessa doença. É que, até pouco tempo atrás, pensava-se que nosso organismo era incapaz de criar novos neurônios. Mas descobertas recentes mostram que o cérebro tem, sim, um mecanismo de reposição. E é nesses neurônios substitutos que pode estar a chave para controlar o mal de Alzheimer.
“Existe a possibilidade de algo que faça que esses neurônios sejam repostos. É uma descoberta fantástica, mas muito difícil saber se isso vai realmente resultar em benefício e quando vai. Mas é fascinante”, diz Ricardo Nitrini, neurologista da faculdade de medicina da USP.
Enquanto isso, Flavio, marido de Lídia, faz o que pode para que sua mulher continue sempre assim, feliz.
“O meu receio é que se você pegar muito no pé dela ela caia em depressão. Já aconteceu de ela ficar assim, tentando lembrar e depois ela chorar”, conta Flavio.
Para saber como agir, todos foram buscar ajuda na Abraz, uma associação criada por parentes de pacientes com Alzheimer.
”O trabalho deles é principalmente com o cuidador”, avisa Flavio.
Em grande parte dos casos, o estresse e a depressão são culpados pela falta de memória. Mas atenção, a falta de memória crônica pode passar meses e anos se fingindo de pura distração e mascarar problemas mais sérios. Existem alguns sinais importantes que pedem avaliação de um médico.
“O homem começa a ter dificuldades no manuseio do extrato bancário, ele começa a ter dificuldades em fazer qualquer planejamento, em fazer uma viagem. Chegar no aeroporto e saber como agir ali frente àquelas demandas da situação. Uma dona-de-casa pode ter dificuldades de preparar um jantar pra meia dúzia de pessoas ou como se programar pras compras do mês. Perguntar muitas vezes informações como que dia é hoje, também é um sinal”, explica Nitrini.
Alguns problemas de memória têm tratamento.
“Às vezes é um distúrbio que pode exigir alguns exames, de tireóide, níveis baixos de algumas vitaminas, de cálcio. É possível intervir nisso”, afirma o médico.
Miguel Reale se formou em direito em 1934. Ao longo da carreira, tornou-se um renomado jurista, escreveu cerca de 70 livros, foi duas vezes reitor da Universidade de São Paulo, a USP. Reale supervisionou o novo código civil brasileiro e pertence há quase 30 anos à Academia Brasileira de Letras. Quer saber como o imortal hoje passa os dias?
“Eu tenho uma vida absolutamente regrada. Eu levanto mais ou menos às sete horas. Almoço mais ou menos a uma hora. Em seguida eu tenho uma velha tradição de um repouso de cerca meia hora, quarenta minutos. Deitado, sem por pijama, claro. Eu considero que a atividade intelectual permanente é uma razão da longevidade”, conta ele.
O cérebro faz tanto pela gente. E tudo o que pede em troca é um cuidado especial. Que seja sempre alimentado com novidades, exercitado com leituras, protegido com exercício físico. Nunca é tarde para aprender coisas novas. Cada pequena tentativa, cada erro provoca um movimento de conexões totalmente novo. Como um músculo, o cérebro não pode parar. Senão fica fraco mesmo. Faça isso por você. Leia sempre. Exercite sua supermáquina!
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