Há uns anos, numa sala de espera de um aeroporto norte-americano encontrei um colega médico, que tinha ido aos Estados Unidos para tratar um câncer e regressava a Porto Alegre. Seu estado era lamentável, mas ele estava radiante: a doença fora completamente erradicada, agora começava vida nova. Poucos meses depois estava morto.
Há duas maneiras de avaliar este relato. A primeira: não adianta se iludir, a morte é o desfecho inevitável. A segunda: esse homem morreu, e talvez tenha morrido sofrendo muito, mas pelo menos teve um interlúdio, ainda que breve, de felicidade, um momento de animadora crença. Dependendo do tipo de pessoa que somos, escolheremos entre a primeira e a segunda alternativa, o que também corresponde à clássica divisão entre aqueles que enxergam o copo meio cheio e os que o vêem meio vazio. O que nos ajuda mais, o otimismo, ainda que ilusório, ou o pessimismo realista? Eu diria que uma combinação dos dois é a melhor resposta: otimismo, sim, mas moderado por uma boa dose de realidade. Ou seja: esperança.
O princípio-esperança é o título que o filósofo alemão Ernst Bloch deu a uma obra famosa. A esperança de que fala Bloch não é ilusão; apóia-se na realidade, inclusive na realidade de um desenvolvimento científico que tem superado enormes obstáculos. Por outro lado, pesquisas têm mostrado que o prognóstico de doenças graves é melhor naquelas pessoas que acreditam, que têm fé, do que nos céticos, nos descrentes. Como isso funciona, não sabemos bem, mas certamente deve ser por meio de uma mobilização das defesas orgânicas por via hormonal. Aquilo que os médicos buscam pelo tratamento, é proporcionado pela mente (pelo espírito, se vocês quiserem) e de forma mais natural. A pré-condição para isso é uma firme crença na vida: na vida atual ou na vida futura, esta sendo artigo de fé para a maioria das religiões.
Mas crença não basta. É preciso lutar por aquilo que se acredita. Lutar, no caso de uma doença, significa enfrentar uma cirurgia, ou tomar uma medicação desagradável, ou submeter-se com paciência à fisioterapia. Os motivos que nos levam a isso não importam muito. Pode ser a disposição para a luta. Pode ser a disciplina. Ou pode ser a raiva.
Raiva, sim. Raiva de nossa própria apatia, de nossa incapacidade para enfrentar o desafio. O poeta Dylan Thomas pediu a seu pai, gravemente doente: "Do not go gentle into that good nightrage, rage, against the dying of the light." Ou, na excelente tradução de Ivan Junqueira: "Não entres nessa noite acolhedora com doçura.../ Odeia, odeia a luz cujo esplendor já não fulgura." A "noite acolhedora" é a morte, para a qual nos conduz o nosso desânimo, a nossa desesperança. Mas contra isso é preciso se rebelar. É uma rebeldia que muitas vezes nos trará de volta à vida.
A esperança como princípio, o auto-esforço como meio, a vitória (sobre nossas limitações) como fim. Uma fórmula que serve para a doença, e serve para a vida em geral.
Fonte: Jornal Zero Hora, Caderno Vida, Coluna “A Cena Médica".
No mesmo caderno “Vida” há mais dois artigos, bem interessantes sobre o mesmo tema: O fator fé e Por que funciona? Recomendo. Para ter acesso tem que se cadastrar, é grátis. Se acharem interessante que publique na íntegra, o farei.
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