quinta-feira, 24 de fevereiro de 2005

País se alinha às nações mais progressistas e defende pesquisas com células-tronco em declaração da ONU
NOVA YORK. O Brasil votou contra a declaração da Organização das Nações Unidas (ONU) que proíbe todo tipo de clonagem de seres humanos, a reprodutiva e também a terapêutica, voltada para a pesquisa com células-tronco, aprovada por apenas 71 países.

O Brasil ficou no bloco das 35 nações mais progressistas — ao lado de França, Bélgica, Coréia do Sul, Alemanha, entre outras — e favoráveis a uma convenção banindo apenas a clonagem reprodutiva de seres humanos e deixando para os países a tarefa de legislar sobre a pesquisa nas chamadas ciências da vida.

Ao fazer a declaração de voto, o representante brasileiro, Vergniaud Elyseu Filho, afirmou que deveria haver mais informação científica e debate antes da decisão final sobre os méritos da clonagem terapêutica e reclamou que a votação só deixou explícita a profunda divisão da comunidade internacional sobre o assunto.

— O Brasil valoriza a vida humana e a dignidade, mas a delegação brasileira vota contra porque o texto tem uma linguagem dúbia e inexata — disse.

Por trás da polidez diplomática, os negociadores brasileiros deixaram claro a crítica à vitória arrancada pelos Estados Unidos, que partiram para a aprovação da declaração por pouco mais de um terço dos países membros da ONU, tornando-a completamente inócua. Mesmo os países islâmicos ficaram entre os 46 que se abstiveram, argumentando que esse tipo de questão tem de ser resolvida por consenso.

— Foi um fracasso, o resultado foi muito ruim — disse o conselheiro Sidney Romeiro que há anos vem acompanhando estas discussões.

Texto foi considerado muito ambíguo

Como a decisão não tem de ser obrigatoriamente adotada pelos países-membros da ONU, nada vai mudar na prática. Há quatro anos as Nações Unidas debatem esse assunto e foi impossível chegar a um consenso.

Há um ano, tentou-se unir os países em torno de uma declaração política de quatro parágrafos, banindo só a clonagem reprodutiva. Mas não houve consenso porque o texto era ambíguo ao se referir à “tentativa de criar vida humana através de processos de clonagem e de pesquisas para alcançar esse objetivo”. Para alguns, como o governo dos EUA, a vida se inicia no momento da fecundação. Para outros, só quando o bebê nasce.

Decidiu-se criar então um grupo de trabalho, mas de novo não houve consenso. Na sexta feira, finalmente, partiu-se para a votação na Comissão de Assuntos Jurídicos da ONU e o mundo dividiu-se sobre as chamadas ciências da vida.

Os cientistas argumentam que a proibição de pesquisas com células-tronco bloquearia os avanços da ciência no tratamento de câncer, diabete, mal de Parkinson e da recuperação de lesões na coluna vertebral — não por acaso, um dos maiores defensores dessas pesquisas era ator Christopher Reeve, o ator que ficou tetraplégico falecido em 2004, e a ex-primeira-dama Nancy Reagan, que cuidou por mais de dez anos de Ronald Reagan que sofria de Alzheimer.
Fonte: O Globo, 23/02/2005.

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