Madrasta
07/02/2011 | O paciente entra com dificuldade, apoiando-se na esposa; já precisara de ajuda na sala de espera para se erguer do sofá; é sempre assim, em casa também: ou alguém o ergue ou tem que se agarrar em algo para se elevar. Caminha recurvado, em pequenos passos, como é típico no mal de Parkinson. O tremor em seu braço esquerdo é evidente. No entanto, a enfermidade e seus 77 anos não afetam sua inteligência nem sua memória. Infelizmente não tolerou mais que uma dose baixa, ineficaz, do medicamento que costuma operar milagres nestes casos. Diante disto há que se tentar outras opções. Afortunadamente o mal de Parkinson tem muitas alternativas de tratamento, inclusive cirurgia.Tais situações são ideais para o emprego de amostras grátis, tradicionalmente propagadas para a classe médica pelos laboratórios. As amostras permitem sobretudo testar se o paciente as tolera.
E assim se fez; um novo tratamento foi delineado; passará a tomar um comprimido a cada seis horas de outro medicamento. Com isto, as três caixas de amostras com 10 comprimidos cada, durarão sete dias quando então será necessário comprar mais. E aí cai a pergunta fatal: este remédio é caro, doutor? Vejamos... aqui no guia de preços de 2009, já um tanto defasado, uma caixa com 30 comprimidos custa R$ 156. O tratamento terá um custo mensal de R$ 624. Isto se o medicamento já não subiu de preço.
E aí paciente e esposa se desiludem e expõem problemas com os quais convivem além do mal de Parkinson: eles só recebem o equivalente a dois salários mínimos. Portanto, tal tratamento se revela inviável por razões óbvias.
Nesta altura, a consulta tomou outros rumos; virou desabafo. Havia necessidade de ventilar a indignação que o alquebra tanto ou mais que o mal de Parkinson: se sente injustiçado, traído por sua pátria que lhe prometeu uma aposentadoria equivalente a 10 salários. Por uns tempinhos até recebeu o combinado de 10 salários, mas logo iniciou uma dilapidação sistemática; em 25 anos, 10 virou dois!
Como havia contribuído por 35 anos pensara ter adquirido um direito. Enquanto isto, assiste desolado outros recebendo vultosas aposentadorias, sempre atualizadas, para as quais nunca falta recursos.
Para operários aposentados, a pátria não é uma mãe; é madrasta. Fonte: Jornal de Santa Catarina.
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