terça-feira, 22 de outubro de 2013

Diário da Europa

21/10/2013 - Todos os dias, lá aparece uma descoberta científica qualquer. Parkinson, Alzheimer, AIDS, câncer - a cura está próxima e a imprensa, em sua histeria visceral, fala em dois anos, talvez três, seguramente não mais que dez para livrar o mundo dessas maleitas fatais.

Depois, nos dias seguintes, nos meses seguintes, nos anos seguintes, a notícia regressa ao esquecimento e já ninguém fala daquele assunto. Que será suplantado por outra descoberta científica --a promissora! a definitiva!-- capaz de derrotar finalmente a mesma lista de doenças fatais.

Como explicar esta sucessão de grandes notícias que se revelam pífias notícias, seguidas por um novo ciclo de grandes notícias que serão pífias notícias --"ad infinitum"?

A revista "The Economist", em sua última edição, levanta o pano: na frenética competição científica em que vivemos, devidamente captada pelo mantra "publish or perish", parece que cresce o número de pesquisas que carecem de verificação rigorosa.

Sem falar da profusão de "papers" devidamente "cozinhados" para apresentarem resultados "saborosos".

Mais: conta a revista que os "resultados negativos" das várias pesquisas, hoje, representam apenas 14% dos "papers" científicos (em 1990, representavam 30%).

Para os editorialistas da "Economist", isso significa um lamentável empobrecimento do "métier" e um risco para a pesquisa séria e fecunda. É uma forma de ver as coisas.

Pessoalmente, o que sempre me incomodou neste carrossel científico, e creio que já o escrevi várias vezes, é imaginar as incontáveis famílias com doentes graves que, todos os dias, confrontadas com uma qualquer promessa de cura ao virar da esquina, oscilam continuamente entre a esperança extrema e a desilusão extrema. Só para que cientistas e respectivos laboratórios possam mostrar trabalho (e, claro, receber mais um cheque).

Haverá forma mais refinada de tortura para quem já tem tortura que chegue em suas vidas?

2.
E falando de grandes cientistas: não é simplesmente delicioso que Peter Higgs, um dos Nobel da Física pela descoberta do bosão com o seu nome, tenha saído para almoçar quando foi anunciado o prêmio?

Contam os jornais que foi uma vizinha a dar-lhe os parabéns. "Parabéns porquê?", perguntou ele, que não usa celular e não sabia de nada.

Já tinha acontecido no passado com a escritora Doris Lessing: ela, chegando a casa com sacolas de mercearia, e os jornalistas à porta. "Parabéns, sra. Lessing." E quando lhe comunicaram o honroso fato, ela pousou as sacolas no chão, ligeiramente fatigada, como se dissesse: "Só me faltava mais essa."

No meio da cultura narcísica em que vivemos, ver o comportamento desses dois gênios é uma lição de grandeza --e uma exibição de pura liberdade.

3.
Anos atrás, lembro-me de assistir a um documentário inglês que nunca mais esqueci. Sobre a formação dos taxistas em Londres. Coisa exigente?

Digamos apenas isso: desconfio que um doutorado em Harvard seria ligeiramente mais fácil. Para dirigirem em Londres, os candidatos entregam-se a uma preparação minuciosa, fatigante, demencial, memorizando cada avenida, rua, beco com precisão fotográfica.

Depois, quando se sentem preparados para o exame oral, apresentam-se perante o Grande Inquisidor - uma figura sinistra em seu requintado sadismo - que colocava ao candidato tremelicante perguntas do gênero: "Eu estou na rua X e pretendo ir para a rua Y. Qual o trajeto mais próximo?"

O candidato descrevia o trajeto de memória - isso, claro, se não desmaiasse ou tivesse um infarto entretanto.

Não sei como estão as coisas hoje em dia. Em Londres, não tenho tido motivos de queixa.

Em Lisboa, pelo contrário, cresce o número de motoristas que desconhece endereços básicos. De tal forma que eu próprio já me ofereci várias vezes para dirigir o táxi.

A culpa, segundo parece, é do GPS: se o endereço não existe no GPS, nada feito. Usar a cabeça (e a memória) é primitivismo do século passado.

Aliás, a cultura do GPS é tão avassaladora que, segundo as notícias, as próprias gôndolas de Veneza passarão a ter um aparelho para ajudar os gondoleiros.

Imagino a cena: o casal, abraçado e apaixonado, passando sob a Ponte dos Suspiros. E, no momento em que se preparam para um beijo, a maquineta dispara com a sua voz mecânica: "Daqui a trinta metros, vire à direita."

Se o amor sobrevive a isto, sobrevive a tudo. Fonte: Folha de S.Paulo (disponível em áudio).
João Pereira Coutinho, escritor português, é doutor em Ciência Política. É colunista do "Correio da Manhã", o maior diário português. Reuniu seus artigos para o Brasil no livro "Avenida Paulista" (Record). Escreve às terças na versão impressa de "Ilustrada" e a cada duas semanas, às segundas, no site.

Um comentário:

  1. O artigo é líquido e certo quanto ao fato de que a maioria dos "achados" científicos relacionados à cura de doenças é requentado, vide o café p.ex. No entanto, estamos diante de algo maior do que diversionismo. Trata-se de ESPERANÇA e, por mais que sejam requentadas as "novidades", nos ajudam a manter a peteca no ar.
    Quem sofre tem pressa!
    Tem que rir p'rá não chorar.

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