Um amigo nada moralista. Assim Paulo José nos é revelado por suas três filhas artistas
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| Paulo José, suas filhas e seu neto João - Bárbara Lopes / Agência O Globo |
07/08/2014 - Antológicos são os tipos criados por Paulo José. Tenham sido vividos pelo próprio ou criados com atores que dirigiu. Um papel exigiu tanto ou mais nesses 77 anos de vida: o de pai. E Paulo não foi um pai comum. Que o digam Isabel, Ana e Clara, frutos do casamento do ator com Dina Sfat (1939-1989). Interessadas em sair debaixo da asa maternal, as três passaram — cada uma a seu tempo — a adolescência com o pai. É dessa época a lembrança de uma casa alegre e aberta aos amigos — dos quatro.
— Era comum as pessoas chegarem para fazer hora lá em casa — conta Clara, destacando o lado festeiro do pai. — Tudo era motivo para festas: nossos aniversários, os dele e os da Zezé (Polessa, namorada de Paulo na época).
Esse ambiente sem moralismos propiciou uma amizade entre pai e filhas. Paulo é, por exemplo, a companhia perfeita para uma viagem.
— Ele topa tudo. Acaba sendo o mais animado — entrega a atriz Ana Kutner, a filha do meio.
Ela lembra com carinho de quando conheceu, aos 15 anos, Machu Picchu na companhia do pai.
— Enquanto perdi o fôlego devido à diferença de altitude, papai corria pelos lugares chamando meu nome. De tão ambientado, parecia um índio xamã — diverte-se.
A comparação não é exagero. Paulo recebe a equipe de reportagem esbanjando vitalidade. A bengala é um acessório (quase) supérfluo. Na hora de descer para a parte de baixo do terreno (onde foi feita a foto desta coluna), chega a dispensar o corrimão.
— Você gastou uma nota para fazer esse corrimão e não vai usá-lo? — adverte sua primogênita, Bel Kutner.
A preocupação de Bel não é mero capricho. A casa precisou passar por adaptações desde que o ator foi diagnosticado com Parkinson. Vinte anos se passaram, e Paulo não se deixa abater. Pelo contrário: tira proveito das mudanças. Aprendeu a tocar piano para não perder o tônus das mãos. A deglutição e a fala são exercitadas com sessões de fonoaudiologia. Para não enferrujar a verve de narrador, montou um estúdio em casa. Assim, segue dando olés na doença.
Outros artistas teriam se fechado em copas. Paulo é diferente. É da realidade que se reinventa. Bel lembra que, durante sua infância, os pais sempre chamaram as meninas para a real:
— Tudo era conversado a fim de instigar nossa curiosidade. O simples ato de acender a luz era motivo de conversa, desde que aquilo era possível graças à invenção da eletricidade ao fato de que tinha um custo.
Clara faz coro e chama atenção para o lado proativo do pai: “Ele não é de pedir, mas de fazer”. E cita um episódio da infância.
— Eu era a mais tímida e lembro muito do meu pai me cobrando iniciativa diante das coisas — diz Clara, a única diretora das filhas.
Esse pai instigante não esconde o orgulho das crias. Longe de ser saudosista, tem um olho no passado e outro no porvir. Aos poucos, deixa de se assustar com a possibilidade de completar 80 anos em 2017:
— O futuro é algo próximo da mesma forma que o passado deixou de estar distante. Percebo um achatamento entre esses dois tempos.
E quanto ao futuro? A resposta vem de pronto: “O futuro é agora”.
Mergulho rápido com Paulo José:
Os melhores papéis: “Macunaíma” e o de “Todas as mulheres do mundo”.
Um papel que achou que não faria e fez: “Benjamim”. Achava que estava velho para o papel, e a Monique (Gardenberg, diretora do longa) me convenceu do contrário.
Uma parceira de cena: Leila Diniz.
Diretores inesquecíveis: Joaquim Pedro de Andrade e Domingos Oliveira.
Melhores trabalhos como diretor: As minisséries “O tempo e o vento” e “Agosto”.
Autores teatrais: Maquiavel e os brasileiros Augusto Boal e (Gianfrancesco) Guarnieri.
Fonte: Globo G1.

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