Banco tem amostras de mais de 2,7 mil cérebros coletados no Serviço de Verificação de Óbitos
20 de maio de 2012 | Questionar dogmas da neurociência virou quase uma rotina no laboratório de Roberto Lent desde que ele e a colega Suzana Herculano-Houzel inventaram a técnica de fracionamento isotrópico, em 2005. Mais do que saciar uma curiosidade quantitativa, contar neurônios se transformou numa ferramenta poderosa de investigação científica.
A primeira vítima foi o dogma que Lent descobriu estar embutido no título de seu próprio livro, Cem Bilhões de Neurônios, publicado em 2000. "A técnica surgiu porque a Suzana me questionou sobre o título do livro. Quais as evidências para esse número redondo? Fomos à literatura e descobrimos que elas eram totalmente inconsistentes", conta. "Aí transformamos o questionamento dela em uma pergunta científica, e bolamos a técnica para respondê-la."
Resultado: contaram as células dos cérebros de quatro homens e chegaram a uma média de 86 bilhões de neurônios; cerca de 15% menos do que o número "mágico" de 100 bilhões. E a segunda edição do livro, publicada em 2010, ganhou um ponto de interrogação: Cem Bilhões de Neurônios? Para ter certeza, estão contando ainda mais cérebros, incluindo de mulheres.
"O mais legal é que tudo isso é o básico do básico", afirma Suzana. "O bom de recomeçar do zero é que podemos separar os fatos das premissas." (...)
Quase todos os projetos são relacionados ao envelhecimento cerebral, que é o tema principal de pesquisa do banco, incluindo estudos sobre Parkinson, Alzheimer e outras doenças neurodegenerativas, além de distúrbios cognitivos e psiquiátricos. Os cientistas querem saber como cada uma dessas condições afeta a composição celular e molecular do cérebro - algo muito mais difícil de se estudar em vida, com o órgão lacrado dentro do crânio.
Criado em 2004, o banco tem uma das maiores coleções de tecido encefálico do mundo, com amostras preservadas do cérebro de mais de 2,7 mil pessoas, graças a uma parceria com o Serviço de Verificação de Óbitos da Capital (SVOC), também da USP, que funciona no mesmo prédio.
O SVOC é responsável por fazer as autópsias de casos de morte natural, sem causa definida - equivalente ao que faz o Instituto Médico Legal (IML) em casos de morte violenta. É o maior serviço desse tipo no mundo, com cerca de 14 mil autópsias por ano, segundo seu diretor, Carlos Augusto Pasqualucci. Há outros serviços similares no Brasil, mas nenhum que se aproxime em dimensão ou com uma estrutura semelhante de coleta científica - razão pela qual os pesquisadores cariocas recorrem a São Paulo para obter seus cérebros.
O SVOC existe desde 1931. Desde 2004, com a criação do banco, uma equipe de enfermeiros pergunta às famílias se elas aceitam doar o cérebro do morto para pesquisa. A taxa de recusa é surpreendentemente baixa, cerca de 5%. Ou seja: de cada 100 famílias abordadas, 95 aceitam fazer a doação. "O brasileiro é muito generoso", diz a pesquisadora Renata Leite, uma das coordenadoras do Laboratório de Fisiopatologia no Envelhecimento (conhecido como Gerolab), onde está instalado o banco.
E é dessa generosidade que brota uma das características mais especiais do banco. "Mais importante do que o número de casos é a diversidade do material coletado", explica Renata. "Outros bancos no mundo, mais antigos do que o nosso, até já coletaram mais. Mas nenhum tem a preciosidade do material que a gente tem. Para Alzheimer, por exemplo, temos casos representativos de todos os estágios da doença, desde o assintomático até o terminal." (segue...) Fonte: O Estado de S.Paulo.
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