quarta-feira, 26 de março de 2014

O Parkinson segundo Manoel Carlos

Não vejo novela, pois não tenho paciência. Por isto, parecerá leviana a opinião sobre o personagem de Paulo José no folhetim ...

por João Nunes.
25/03/2014 - Não vejo novela, pois não tenho paciência. Por isto, parecerá leviana a opinião sobre o personagem de Paulo José no folhetim Em Família, no qual o ator interpreta ele mesmo com Parkinson. Mas tenho base para escrever sobre depois de ler o artigo da jornalista Cláudia Collucci, hoje, na Folha de São Paulo.

Primeiro, o personagem ajuda “desmitificar”, de mito – desmistificar é desmascarar. Até aqui, só temos uma questão linguística. O mais importante é entender que ela acha que rir de si mesmo ajudo a derrubar o mito sobre a doença. Os exemplos clássicos são o próprio Paulo José e Michael J. Fox.

Ainda bem que ela própria reconhece que eles não são bom exemplo, pois possuem dinheiro suficiente para se cuidarem como se deve, com todo o aparato necessário de acompanhantes, vários tipos de personal, médicos particulares, bons remédios e terapeutas. Ainda assim, eles admitem que enfrentam depressão.

Difícil é encarar o SUS, filas imensas para conseguir remédio de graça e, se precisar terapias alternativas, enfrentar série de dificuldades – demora na marcação de consulta, adiamento delas, entre outros transtornos; passei seis meses tentando consulta com um endocrinologista até desistir. Não estou cuspindo no prato que como. Sou grato por ter esses serviços gratuitos, mas não rejeitaria ser tratado no Albert Einstein.

Talvez, ficasse mais fácil rir quando a comida cai do garfo, ou quando tentasse pegar um guardanapo de papel no restaurante, ou abrisse um coador de papel, ou segurasse um prato no self-service numa praça de alimentação lotada e sem mesa, ou puxasse o zíper da mochila, ou digitasse este texto lentamente, enquanto os dedos insistem em ficar na mesma tecla e disparam letras iguais. Pensando bem, no SUS ou Albert Einstein, não tem graça nenhuma fazer precariamente tais atividades.

Mas se os desconfortos fossem atenuados com a simples solução de se ter dinheiro no bolso – muito, diga-se – não há como não se sentir melhor. Por exemplo, para comprar um aparelho de limpeza nos dentes, uma vez que o fio dental virou sofrimento. Mas ele custa módicos R$ 350. Bem em conta se estiver pensando na cirurgia de R$ 250 mil. Sim, dos ricos é o reino dos céus.

Se eu continuar nesta ladainha, alguém poderá me calar fazendo vaquinha, ou o médico que cobra R$ 250 mil se sensibilizará e cobrará apenas 10% do estabelecido. Mas não se trata disso, pois outros milhares continuarão sem o mesmo benefício. Não estou, portanto, advogando ou fazendo campanha em causa própria, mas tentando entender que mito é esse que a jornalista diz que o personagem quebra ao rir de si mesmo.

Ela acha que há um lado positivo na doença. Ela não é letal, mas degenerativa. Qual a vantagem mesmo? Ora, morrer todo mundo vai. Eu estou com 65 e não pretendo ver a Copa do Mundo do Qatar. Ou melhor, quero vê-la diretamente do Nosso Lar numa TV de 70 polegadas, entremeando as partidas com concertos em parques lindos à beira de um lago e vestido de branco e tomando sopa de água.

Portanto, morrer não é nenhum problema para mim – não tenho medo da morte nem do lugar para onde, se é que vamos para algum lugar. Porém, não me venha falar em rir da degeneração, pois esta é indigna. Vi um velho amigo, jornalista, meu vizinho, se definhar aos poucos, lutando bravamente para seguir trabalhando. Nos últimos tempos, o corpo rígido dele o arrastava.

Mas o pior do artigo é dizer que a postura do personagem ajuda outros a “saírem do casulo e serem felizes”. Felizes? Conheço milhares de pessoas sãs e infelizes. Por que, com Parkinson, eu seria feliz? Sim, a felicidade inunda meu corpo e mente quando entro num supermercado e olho milhares de produtos sem poder comprá-los. Quase tudo tem lactose ou açúcar – e nem mencionei o álcool – e tudo pelo triplo do preço. É para morrer de felicidade.

E, afinal, o que quer mesmo dizer felicidade? A jornalista entra na onda do mundo contemporâneo de que não precisamos encarar a dor. Divirta-se derrubando comida do garfo, mas não caia na depressão. Eu digo não. Dor é para ser sentida; não tenho medo da dor. Sofro diariamente, reclamo, pois sou humano, mas não fujo dela.

Não quero pintar minha vida de cor-de-rosa, quando a cor é cinza, e não admito ser chamado de melhor idade (odeio eufemismos), pois, afora um tantinho de sabedoria que se adquire com os anos, há muito pouca coisa boa na velhice. Furar fila de banco e pagar meia no cinema ou embarcar primeiro no avião são algumas delas. Melhor? Ora, melhor seria ter 21 anos. De preferência (aí seria abuso de minha parte) com a cabeça de 65 – se podemos sonhar, why not?

Mas não pensem que busco (com este texto) comover quem quer que seja para este pequeno drama do Parkinson (há outros piores, porém isto tampouco me sensibiliza). Não quero que tenham pena de mim (eu não tenho), pois ninguém merece pena. Nem quero que se solidarizem com o pobre coitado, como se eu fosse único ou o pior de todos.

Lamentei quando fui diagnosticado, fiquei bem mal, mas assumi publicamente, e nunca perguntei “por que eu?” (e por que não?). Mas não me apareçam com aborrecidas lições de auto-ajuda com livros do tipo Com Parkinson, mas Feliz – ao estilo Manoel Carlos de ser – mostrando um sujeito ranzinza que passou a sorrir.

Tudo começou quando ele descobriu que era muito legal a comida cair do garfo. Primeiro, ele só sorria. Depois, passou a gargalhar. E que era demais lutar desesperadamente para usar o fio dental. É o máximo! Ele termina a narrativa em tom apoteótico, bem carnavalesco (como o Brasil) gritando para quem quiser ouvir: “Eu amo o Parkinson, vem pro Parkinson você também”. Fonte: Correio Popular / Campinas.

Opinião: Concordo..., e discordo. Não tem saída. Só nos resta ser pró-ativos. De nada adianta chutar o balde.
Triste vida, triste sina, ser poeta de latrina...

2 comentários:

  1. Eu teria escrito esse texto extamente como foi escrito.Concordo plenamente com tudo que voce falou sobre o artigo na Folha e tudo mais.Também odeio a expressão MELHOR IDADE. É muito facil pra quem não tem a doença falar tudo isso.Quero ver achar graça em não conseguir virar na cama nem sair dela de manhã.Além de outros transtornos.

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